Angu de Sangue – Marcelino Freire

Angu de Sangue, de Marcelino Freire

Vilma Stiller Cerqueira

Muribeca

Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão.

É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho?

E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?

E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa?”

Criticar um livro de contos é perca de tempo porque não há homogeneidade nem de assunto nem de estilo – já que nenhum conto, obviamente, é igual ao outro. Por isso que, a se tratar deste gênero, o que deve ser criticado é quem os escreve, ou melhor: o estilo de quem os escreve, e não somente um conto em particular aqui ou ali, correndo-se o risco de ser injusto com o autor – que muito se esforçou por escrever suas histórias de um jeito sempre diferente.

E quem poderíamos citar, ao nos referirmos ao gênero mais antigo da literatura, se não o que é tido como um dos melhores contistas do Brasil?

Marcelino Freire, que desde seu Angu de Sangue, vem fixando-se no Mercado Editorial como um “talento” nos contos, pode-se muito bem ser definido como: “Uma voz de quem sofre”, pois seus contos não inventam personagens, mas somente revelam os protagonistas que já há muito conhecemos na sociedade.

O conto, por ser muito complexo, pode ser isso ou aquilo, correndo-se entre a poesia e a crônica, e se fôssemos pela justiça, diríamos de Marcelino um cronista criativo, mas não inventor de histórias – não é à toa que tudo vira teatro muito fácil, com uma certa encenação até na narração, ou nos sentidos das significações sociais, pela simples contestação da realidade – e, em outras palavras: o que temos é um discurso pelos fracos em voz de literatura, sem um personagem, uma história de começo e fim: apenas algumas cenas.

Se dizer de Marcelino Freire o ícone do conto contemporâneo brasileiro é exagero, podemos então segmentá-lo somente ao seu tão característico tipo de compor contos – que, segundo constatamos com Cidade de Deus, Tropa de Elite e Falcão: Meninos do Tráfico é o que a sociedade atualmente procura: com uma demonstração em protesto da realidade sofrida, para que todos leiam… e somente a isso façam: para não dizerem que não fizeram nada, ou que não fingiram não ver.

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