Caracterização do curso

O curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM se alinha à política pública de afirmação da Educação do Campo expressa no Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo) e contribui para o processo de construção de um sistema público de educação para as escolas do campo. Visa a formação de professores para atuar nas escolas que atendem à população do campo dentro de uma perspectiva da educação do campo nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio bem como a possibilidade dos egressos virem a atuar como educadores em diferentes espaços formativos.

O curso prevê ações que articulam ensino, pesquisa e extensão e promovam a educação do campo e os estudos concernentes às suas populações a fim de viabilizar a formação dos professores contextualizada na realidade dos povos do campo. Esta perspectiva é de fundamental importância para a materialização das políticas públicas.

A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva, na rede de ciência e tecnologia disponível, no debate sobre os modelos de desenvolvimento para o Brasil, incluindo o diálogo com os atores sociais nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva do país. (BRASIL, 2002)

A matriz curricular do curso desenvolve uma estratégia multidisciplinar de trabalho docente, organizando os componentes curriculares em três áreas do conhecimento: Ciências Humanas, Linguagens e Códigos e Ciências da Natureza. Essas áreas se organizam em três eixos estruturantes: Formação Básica, Formação Específica e Práticas Integradoras.

O currículo prevê etapas presenciais e não presenciais, organizadas em regime de alternância: Tempo Universidade e Tempo Comunidade. A carga horária total prevista é de 3.300 horas e 220 créditos, integralizados em oito módulos semestrais.

No período inicial de institucionalização da Licenciatura em Educação do Campo na UFVJM (2013, 2014 e 2015) serão ofertadas 60 (sessenta) vagas anuais em duas habilitações: 30 (trinta) vagas para Linguagens e Códigos e 30 (trinta) vagas para Ciências da Natureza, totalizando 180 vagas em três anos.

O projeto pedagógico da licenciatura em Educação do Campo articula elementos curriculares que possibilitam a construção de uma trajetória formativa apoiada na realidade das populações do campo. A ressignificação dos componentes curriculares é favorecida pelo regime de alternância que estimula o professor/educador em formação a assumir o protagonismo do seu processo formativo e na produção de conhecimento. Um conhecimento que é também uma ação política de afirmação de identidades, de reconhecimento de territorialidades e saberes e das populações do campo.

Nesse contexto, o professor/educador do campo deve ter como base uma formação em ciências humanas que o instrumentalize com metodologias de pesquisa e intervenção no meio social aliada a uma formação pedagógica, que lhe munirá com as teorias de ensino-aprendizagem que serão aplicadas de acordo com a realidade do campo.

Os marcos teóricos que sustentam essas proposições são:

  • A pedagogia da autonomia (FREIRE, 1996), cujo caráter progressista apoia-se na tendência filosófico-política da educação como meio de transformação da sociedade. Nessa concepção, o processo de educação vai além da transmissão do saber instituído na qual o estudante é o objeto e não o sujeito do ensino. Ao deslocar o processo educativo para a realidade do aluno, a Pedagogia da Autonomia desconstrói a lógica autoritária do saber universal, convidando os estudantes a assumirem um papel de protagonismo no seu processo formativo. Essa posição favorece estratégias pedagógicas como alternância, espaços de compartilhamento de saberes, processos de gestão participativa, entre outras práticas que promovam a participação da comunidade interna e externa. A ênfase recai sobre a experiência do grupo e as possibilidades que este apresenta de transformação, por meio do aprendizado crítico, da realidade na qual está inserido. Nesse processo, é possível a consolidação da cidadania.
  • A interdisciplinaridade está inserida na proposta de organização curricular em áreas de conhecimento, na contextualização da identidade, da diversidade e da autonomia preconizados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,1999). Para se entender o termo interdisciplinaridade, é preciso retomar a noção de disciplina: A organização disciplinar foi instituída no século XIX, notadamente com a formação das universidades modernas; desenvolveu-se, depois, no século XX, com o impulso dado à pesquisa científica; isto significa que as disciplinas têm uma história: nascimento, institucionalização, evolução, esgotamento, etc.; essa história está inscrita na da Universidade, que, por sua vez, está inscrita na história da sociedade. (MORIN, 2002, p.105).  A disciplinaridade pode promover um saber fragmentado, o que vai contra a concepção de educação transformadora. Entretanto, o exercício da interdisciplinaridade apresenta dificuldades, pois exige uma abordagem pragmática em que a ação passa a ser o ponto de convergência entre o fazer e o pensar interdisciplinar. Não se trata, portanto, de eliminar as fronteiras disciplinares, mas de favorecer diálogos que promovam a integração metodológica das disciplinas na construção de práticas e saberes. Do ponto de vista da formação do docente, a interdisciplinaridade deve proporcionar ao futuro professor/educador as ferramentas para transitar entre fronteiras, dialogar com as várias disciplinas a partir de seu saber específico e contribuir para a construção de um conhecimento que inclua a diversidade e a coletividade.
  • A multidisciplinaridade, assim como a interdisciplinaridade, insere-se como uma possibilidade de superação da fragmentação do conhecimento. Enquanto a interdisciplinaridade pressupõe uma interação metodológica das diferentes disciplinas no fazer e no pensar, a multidisciplinaridade joga sobre o mesmo objeto olhares das diferentes disciplinas.

Ao organizar os componentes curriculares em diversas áreas de conhecimento, este projeta adota estratégias inter e multidisciplinares, visando promover uma ruptura com o isolamento disciplinar e a construção de uma leitura complexa da realidade do campo.