O Boi e a Cerca – Kleber Ramon

O BOI E A CERCA

Kleber Ramon

1 – Os objetos:

BOI SUBMETIDO, POR COMPLETO
37 x 22 x 7 cm

O BOI E A CERCA PRA BOI
96 x 62 x 11cm

O ECO DO BERRO, O RASTO E A BOSTA DO BOI, REFLETIDOS
53 x 43 x 23 cm

ENTRE O BOI E A CERCA E VICE-VERSA
101 x 31 x 16 cm

BOI PEGO PELA BARRIGA
49 x 13 x 7 cm

DE UMA MANEIRA OU DE OUTRA: A CERCA E O BOI.
41 x 19 x 14 cm

EQUILÍBRIO (forçado) EM ASSUNTO DE BOI E CERCA
34 x 14 x 14

A CERCA LEVADA-EM-BOLSO-DE-PALETÓ (coisa de Boi)
74 x 14 x 7 cm

O BOI EM HARMONIA COM A CERCA, EM NOITES DE LUA
33 x 23 x 13 cm

2 – O poema:

O BOI E A CERCA

O farpo que espeta a carne e o couro que protege a carne do farpo que espeta

Ao longo segue. Tesa, linear.
Aos farpos-agulhas,
Sobre firmes estacas
Fincadas no chão:
A cerca.
De volta em roda,
Em  longa paisagem:
Verdes pastagens para boi-de-corte.
Bois em recria, em engorda, bois ao abate.
Todos criados, engordados. Cercados.

Os bois até um longe pastam. Pode-se ouvir um berro de forma a quase não ouvir. O berro do boi viaja em ondas – notas encorpadas num crescente sequencial, harmonia singular – atravessa distancias, ricocheteia numa grota ou pedreira e ecoa tonante em repiques que se perdem aos poucos, distanciando. Tal berro, em si, parece os-berros-de-todos-aqueles-bois em mais de mil. O som dum berrante é a inveja desse berro. Então, o boi, seu único limite é a cerca. No mais, tudo ali é por ele, pra ele até quando levado a corte.

Boi de corte , boi de corte, boi de corte.
Corte, corte, corte, boi, boi, boi.
A cerca que cerca o boi ,
Ela é feita de arame farpado.
Ela cerca e corta, se pensa que não cerca.

Tem bois que fogem ao comum dos bois. Estes têm como principal característica estar sempre beirando cerca. E maiorias das vezes não são amistosos, como que quisessem vingar dessa sua condição imposta. Tem bois que parecem ter consciência da sua sina. Assim se rebelam, como requerimento de uma justiça. Naquilo que os remete a um “social” o boi não tem contrato com o homem, ele é submetido à condição em que vive porque sua raça foi domesticada.  Nesse contra gosto o que dá gosto é ver uma boiada compondo com a paisagem. Em noites de lua, de um ponto mais alto, pode-se ver ao longe; e em dias claros ainda mais longe até que os bois fiquem pequenininhos ou quase como não bois. Nalgum canto, numa sombra, alguns muitos ruminam. Hálito cheiroso de capim fresco. Pássaros solidários catam carrapato e mosca em seus dorsos que se entregam a esse bem fazer.

Diz-se que foi com o boi que o homem aprendeu a se rebelar, bem como a se submeter.

Por que tem boi que não se submete? Sob a ponta de um ferrão esbraveja em baba, berro, chifres e cascos. Levanta poeira, em rodopios. Urra, caga mole e pisoteia se lambuzando num verde e terra. Não se entrega. O boi corre num embalo, bole pra lá, bole pra cá, pula pra cima, pula de banda e de través como que em repiques e se lança sobre a cerca… Vai que a cerca pode, e segura o boi que usa seu couro que se rasga aqui e ali em sangue pra proteger sua carne do farpo que corta. Bois rebeldes, estes trazem  diferença para com os demais. No meio da boiada são aqueles mais sadios, esguios, que olham de través, remetem firmes as orelhas adiante, assustam-se e bufam a vista de coisa sem importância. Trazem de nascença como que uma fagulha de espírito e, maiorias das vezes têm uma estrela na testa ou uma mancha nítida num dos quartos ou na barbela. Esse tipo de boi não gosta de gente nem de outros animais por perto e nem mesmo dos outros bois. Eles gostam de ficar nos capoeirões e grotas distantes. E, sempre beirando cerca.

Vai boi, vem boi,
Tem aqueles que seguem mansos,
No conforme, nos limites da cerca: bois comuns.
Estes andam daqui pra ali no longo do cercado,
Pastando. Pacíficos, indiferentes.
E quando há, quase que sempre, dos desgarrados.
Quando há daquele manhoso que berra até a rouquidão:
Boi barranqueiro, trabalhoso…
Desses, vez ou outra,
Um arrebenta a cerca.

PROPOSTA

Realizarmos uma mostra INTERARTES, em que a arte visual dialoga, numa relação direta entre significados, com a literatura; no caso a obra composta de nove peças distintas, feitas de couro cru, de boi, e arame farpado (conforme fotos anexas) e o poema “O Boi e a Cerca”. Ficando em aberto o tempo para declamação do poema, apresentação de uma cantiga-de-boi e uma conversa sobre.

3 – Observações:

O boi, enquanto tema e matéria de poesia, é presença constante na arte em geral e principalmente na literatura da região.

Todo o trabalho de arte visual (“objetos”) é realizado em couro cru, de boi, e arame farpado. Cada peça tem um título que a especifica e a insere na relação com o poema.

A ideia é: apresentar as nove peças (os objetos), cada qual em um “porta cartaz” (cavalete) e o poema, em um banner, expostos na mesma sala.

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